SÉCULO XXII – Finalmente sou útil para alguma coisa. Meu
local na prateleira do museu me permite a companhia de outras peças ilustres e
quase diariamente há curiosos aprendendo algo comigo. Mas infelizmente não há
mais sedentos que necessitem dos meus préstimos.
Século XX – Finalmente saí do longo período de escuridão do
soterramento. As cócegas do pincel da arqueóloga me permitiram novamente ver a
luz. Talvez eu volte a ser útil em saciar a sede.
Século X – Efetivamente não há mais esperanças. A poeira do
deserto trazida pelo vento e fezes de morcegos me encobriram totalmente. Como
já não bastasse a semiescuridão da caverna, agora totalmente soterrada não vejo
perspectivas.
67 aD – A perseguição obrigou os fugitivos a me conduzirem
para longe da cidade – e longe do tirano que espalhou o terror da morte entre
alguns sectários. Não sei exatamente o que aconteceu ao meu amo. Talvez tenha
escapado para algum local distante e preferiu me abandonar aqui. Ou sua sorte o
tenha abandonado levando-o a compor as filas dos atrativos do circo romano.
32 aD – Ainda bem que um bando de pessoas apareceu e assim
não fui esquecida. A mulher ficou tão deslumbrada com a conversa com o judeu a
quem servimos água que saiu correndo e eu fiquei na beira do poço em Samaria.
Com tantas outras pessoas no mundo, logo tive que ser comprada por uma
samaritana desvairada...
433 aC – Depois de um longo período abandonada entre
escombros, vejo novamente movimento de pessoas ao longe. Cautelosas porém
esperançosas, trabalham reconstruindo com uma espada na mão. Um olho no
trabalho e outro nos adversários.
722 aC – Meu inexpressivo valor é evidente. Fui deixada para
trás enquanto que o
utras peças mais nobres – de ouro e prata - foram levadas
para servir ao rei Salmaneser na Assíria. Para mim restou a solidão e o caos.
SÉCULO VIII aC – Extraordinariamente meus préstimos foram
necessários para comportar azeite. Uma vizinha solicitou meu empréstimo em uma
operação de estocar o líquido que não parava de jorrar de um outro jarro.
Fiquei contente em saber que a venda do azeite quitou uma dívida e evitou que a
viúva precisasse entregar seus filhos como escravos.
SÉCULO XII aC – Se eu não estivesse em bom estado estaria
espatifada agora. Minha velha amiga de prateleira foi levada para uma batalha noturna
e primeiramente usada para ocultar a chama de um archote e depois ruidosamente
quebrada nas pedras para assustar o inimigo.
SÉCULO XVII
aC – O trabalho foi exaustivo!
Não bastasse
o viajante sedento pedir água, minha ama ofereceu-se para dar de beber aos seus
10 camelos. É incrível a quantia de água que um bicho desses bebe...
SÉCULO XX aC
– Fui retirado do meu local de origem. Primeiramente cortado, depois amassado,
cortado novamente em tiras, enrolado e depois de moldada fui esquecida por
muitos dias a ponto de secar totalmente. Insatisfeitos, colocaram-me em fogo
intenso. Após esfriar, fui duramente esfregada com pedras que removeram todas
as partículas soltas ao meu redor e interior. Só então tive contato com água
novamente. Mas minha natureza estava transformada. Eu não consegui mais
absorver a água. Apenas armazená-la.
SÉCULO XXXX
aC – Ainda sem forma, percebi que parte ao meu lado foi sendo retirada e
moldada. Pés, pernas, tronco, braços, pescoço e cabeça. Ouvi um sopro e aquela
parte movimentou-se e não mais a vi.Parece ter recebido liberdade de ir para onde quiser. Ainda não sei se foi uma boa ideia.

Nenhum comentário:
Postar um comentário