sábado, 6 de setembro de 2014

Barro transformado

SÉCULO XXII – Finalmente sou útil para alguma coisa. Meu local na prateleira do museu me permite a companhia de outras peças ilustres e quase diariamente há curiosos aprendendo algo comigo. Mas infelizmente não há mais sedentos que necessitem dos meus préstimos.

Século XX – Finalmente saí do longo período de escuridão do soterramento. As cócegas do pincel da arqueóloga me permitiram novamente ver a luz. Talvez eu volte a ser útil em saciar a sede.

Século X – Efetivamente não há mais esperanças. A poeira do deserto trazida pelo vento e fezes de morcegos me encobriram totalmente. Como já não bastasse a semiescuridão da caverna, agora totalmente soterrada não vejo perspectivas.

67 aD – A perseguição obrigou os fugitivos a me conduzirem para longe da cidade – e longe do tirano que espalhou o terror da morte entre alguns sectários. Não sei exatamente o que aconteceu ao meu amo. Talvez tenha escapado para algum local distante e preferiu me abandonar aqui. Ou sua sorte o tenha abandonado levando-o a compor as filas dos atrativos do circo romano.

32 aD – Ainda bem que um bando de pessoas apareceu e assim não fui esquecida. A mulher ficou tão deslumbrada com a conversa com o judeu a quem servimos água que saiu correndo e eu fiquei na beira do poço em Samaria. Com tantas outras pessoas no mundo, logo tive que ser comprada por uma samaritana desvairada...

433 aC – Depois de um longo período abandonada entre escombros, vejo novamente movimento de pessoas ao longe. Cautelosas porém esperançosas, trabalham reconstruindo com uma espada na mão. Um olho no trabalho e outro nos adversários.

722 aC – Meu inexpressivo valor é evidente. Fui deixada para trás enquanto que o
utras peças mais nobres – de ouro e prata - foram levadas para servir ao rei Salmaneser na Assíria. Para mim restou a solidão e o caos.

SÉCULO VIII aC – Extraordinariamente meus préstimos foram necessários para comportar azeite. Uma vizinha solicitou meu empréstimo em uma operação de estocar o líquido que não parava de jorrar de um outro jarro. Fiquei contente em saber que a venda do azeite quitou uma dívida e evitou que a viúva precisasse entregar seus filhos como escravos.

SÉCULO XII aC – Se eu não estivesse em bom estado estaria espatifada agora. Minha velha amiga de prateleira foi levada para uma batalha noturna e primeiramente usada para ocultar a chama de um archote e depois ruidosamente quebrada nas pedras para assustar o inimigo.

SÉCULO XVII aC – O trabalho foi exaustivo!
Não bastasse o viajante sedento pedir água, minha ama ofereceu-se para dar de beber aos seus 10 camelos. É incrível a quantia de água que um bicho desses bebe...

SÉCULO XX aC – Fui retirado do meu local de origem. Primeiramente cortado, depois amassado, cortado novamente em tiras, enrolado e depois de moldada fui esquecida por muitos dias a ponto de secar totalmente. Insatisfeitos, colocaram-me em fogo intenso. Após esfriar, fui duramente esfregada com pedras que removeram todas as partículas soltas ao meu redor e interior. Só então tive contato com água novamente. Mas minha natureza estava transformada. Eu não consegui mais absorver a água. Apenas armazená-la.

SÉCULO XXXX aC – Ainda sem forma, percebi que parte ao meu lado foi sendo retirada e moldada. Pés, pernas, tronco, braços, pescoço e cabeça. Ouvi um sopro e aquela parte movimentou-se e não mais a vi.Parece ter recebido liberdade de ir  para onde quiser. Ainda não sei se foi uma boa ideia.

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