O calor escaldante o levava a buscar a
sombra de algumas árvores.
Ainda bem que havia solo lavrado ali e àquela
hora do dia pode ser aproveitada mesmo com sol quase a pino. É claro, com algumas
paradas para enxugar o suor e molhar os lábios no cantil. Mas sem muita delonga
por cuidar que a noite vem quando não se pode trabalhar. Cuidando também de não
lançar apenas as sementes ao vento.
Semeando muito por não saber se estas ou
aquelas sementes germinariam.
Talvez para não desencorajar os
pretendentes, o instrutor foi modesto ao mencionar as pedras, espinhos e
pássaros como empecilhos de boa colheita. Ele não mencionou as geadas, as
formigas, o gado do vizinho que ocasionalmente rompe as cercas, o excesso de
chuvas ou mesmo a possibilidade de sementes de baixa porcentagem de germinação.
O sol declinando projetava a sombra das
árvores e a semeadura continuou em campo aberto.
Mais distante.
O lusco-fusco do sol poente obrigando a
semicerrar os olhos revelou-lhe uma vala profunda. Chegara ao limite do campo
arado e ao limite do labor do dia.
A vala pareceu um abrigo interessante
para o frio da noite.
Inimigos rondavam e ir além requeria pelo
menos o preparo daquele solo além-vala.
O vozerio inofensivo apresentou outros
abrigados ali e foi devidamente acolhido. Dado as circunstâncias, aceitou de
bom grado o conforto do lugar e um copo de água fresca oferecidos.
Junto com a luz do alvorecer o som dos
pássaros que certamente, aos bandos, se alimentavam das sementes ontem lançadas
o inquietou.
De forma agradecida, manifestou seu
intento em sair para espantar os pássaros, porém uma senhora gentilmente
segurou sua mão convidando para antes alimentar-se. O dia seria exaustivo e ele
precisaria forças. Antes da lauta refeição, outro companheiro orientou o grupo
em como remover pedras num campo, permitindo seu cultivo. Informação necessária
para iniciantes e ele concordou e assistiu silenciosamente imitando o respeito
dos demais.
Com a alimentação inicial e as
orientações detalhadas, o sol já refulgia em seu calor máximo, sendo
prudentemente orientado a permanecer abrigado. E assim findou seu dia.
Improdutivo.
Na manhã seguinte, ventos sopravam com
força acima da vala, indicando que a chuva chegaria e a capina não traria bons
resultados: haveria lama impedindo o rastelamento e consequente rebrota. A
sábia opinião dos companheiros presentes foi investir o dia trabalhando na
melhora da drenagem na vala para que os abrigados não sofressem danos em seu
refúgio.
Além da drenagem, outras
importantíssimas providências ocuparam o grupo e após algumas semanas, o
semeador lembrou-se do campo onde havia plantado. Na dúvida entre preparar o
terreno além-vala, optou por retornar ao campo onde as sementes lançadas já
haviam germinado e tomavam corpo com forma definida. Entretanto, inços
igualmente se formavam remetendo a oportuna lembrança do instrutor que
considerou: “Arrancar as ervas daninhas formadas danifica o sistema radicular
da cultura pretendida e assim, é preferível deixar ambas crescerem e fazer a
seleção dos grãos após a colheita”. Se o cuidado de evitar o desenvolvimento do
indesejável tivesse ocorrido no tempo devido, teria evitado perda de produção,
pois as ervas daninhas demandam nutrientes do solo e tomam espaço físico
importante.
Pelo menos duas vezes por semana a
devida remoção das pedras no preparo do plantio era relembrada de forma efusiva
e ostensivamente apontada como a parte mais importante do processo. Diferente
da preocupação de outras valas que apontavam outros cuidados heréticos no
cultivo. O zelo em importar-se com os companheiros chegava ao limiar de desprezar
o contato com outras valas, quase mais inconvenientes do que os campos
abandonados.
A própria colheita foi desconsiderada. “A
uns cabe arar, outros semear, a outros regar e a outros colher”. Sábias
palavras.
Após alguns anos e algumas mudanças
administrativas na vala, a obesidade do semeador gritou-lhe ao retorno.
Porém seu campo outrora arado agora era
inviável. Totalmente tomado por arbustos e árvores, tornara-se um desafio
intransponível.
Ele agora só sabia a teoria da remoção
de pedras.
E não tinha mais sementes...

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