terça-feira, 16 de setembro de 2014

Tronco


Provavelmente aquele tronco de árvore era usado pelo ferreiro para demonstrar a qualidade e o fio dos seus machados, mas para o velho guerreiro serviu como um sofá de uma sala de espera.
Esperas sempre são difíceis. Incompreendidas. Indefinidas. Irritantes. Intoleráveis.
Mas o tronco ofereceu o conforto necessário. No duplo sentido da palavra. Conforto. Consolo. Comodidade.
Entre o aparente antagonismo do ”i” de insuportável o inexplicável “c” culmina curiosamente,  numa conveniente calmaria para concatenar conclusões.
Ainda assentado puxou com dificuldade sua espada da bainha, observando um lastimável estado. Outrora afiadíssima, agora mostrava marcas de golpes em outras espadas. O brilho nos combates, agora inibido pelo indício de ferrugem da inatividade.
Algo dentro dele contribuía com coragem.  Esperanças que o levaram de volta ao ferreiro que a forjara. Porém, o vigor das suas mãos já não respondia convenientemente na empunhadura e a espada voltou para dentro da bainha.
Em suas mãos também havia marcas. Cicatrizes que contavam calorosas vitórias.
Sempre combateu o inimigo de frente, mas a proteção da couraça limita-se ao peito e isso não impediu de sofrer nas costas os golpes mais doloridos: os dos próprios companheiros de batalha.
 Incisões da indiferença, inaptidão, imprudência, impropérios imerecidos, inveja, irracionalidade, ira incauta ou induzida. Indignado imaginou-se imerso em imposições imundas.

Com cordialidade, o tronco contribuiu calado. 

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