quinta-feira, 11 de setembro de 2014

Samaritano trouxa!

 
 O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a caminhada no escuro da noite. Talvez sem perceber a fome o impelia a ir mais rápido. Porém ele sabia perfeitamente que em sua casa, seus filhos também amargavam a escassez de provisões.
Sua ida a Jerusalém não lhe rendeu o esperado trabalho e o coletor de impostos confiscou-lhe os últimos dois denários como tributo. Ganância corrupta.
O silêncio da estrada pedregosa e deserta o afligia na busca de desculpas a apresentar. Desculpas quando de fato sua única culpa era a de estar vivo.  Desculpas a apresentar por cuidar em satisfazer olhos famintos, quer seja dos filhos que o aguardavam ou dos soldados romanos junto ao coletor.
As vozes dos desocupados assentados nas rochas soaram solidárias. O semblante sombrio, ombros curvados e mãos vazias testemunhavam sua vergonhosa miséria e foi poupado. Poucas palavras trocadas reafirmaram seu infortúnio.
Os rápidos movimentos dos desconhecidos levaram-no a também esconder-se instintivamente nas rochas. Pareceu-lhe seguro o abrigo do incerto, pois o som de passos pesados aproximava-se. Arremessou a pedra com a força da angústia e do medo, antes mesmo de identificar o motivo. Mas os desocupados rápidos e hábeis já aliviavam o turco obeso de sua sobrecarga.
Depois da consciência perturbada pelo ocorrido, apossou-se na partilha de damascos secos, um pão e algumas moedas, concluiu em rápida evasão inspirado pelos comparsas encontrados pelo acaso. Estes levaram o alforje, iguarias e as roupas do mercador viajante, deixando-o inconsciente e nu.


O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a caminhada no escuro da noite.
Talvez o cansaço por permanecer assentado na coletoria o dia todo o impelia inconscientemente a buscar o conforto da sua casa. Talvez estivesse tentando apenas afastar-se da desconfortável presença dos soldados que como sanguessugas, pilhavam os estrangeiros alegando tributo a Cesar.
O silêncio da estrada deserta o afligia com o eco das palavras do galileu maluco que o convidou: “Mateus! Venha comigo”.
O trabalho abjeto, porém amparado pelas bênçãos de Júpiter sob a guarnição de lanças e espadas, lhe permitia chegar ao lar abonado.  O bom sustento dos seus e a posição social mascaravam um sentimento de dever cumprido, dentro da legalidade. Mais aceitável que as ideias do nazareno maluco.
No caminho, saudações cordiais das autoridades religiosas confirmavam o famigerado escalão social, assim como o abraço da esposa e dos filhos ao entrar pela porta.

  
O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a caminhada no escuro da noite.
Foi comprar grãos recém-moídos pelo vizinho e que ainda precisavam ser preparados e transformados em pães. A lenha aquecia ao crepitar dos gravetos iniciando o fogo. Logo o forno estaria quente.
Mesmo que não houvesse hóspedes, as lâmpadas precisavam ser abastecidas em prontidão caso algum cliente ainda surgisse.  A difícil esperança do incerto.
Alguns levando mercadorias de Gaza a caminho de Decápolis. Outros vindos da Pereia e que perderam tempo na travessia do Jordão, preferindo descansar antes de subir até Belém.  O caminho pedregoso, convenientemente evitado ao anoitecer.
Ele preferia que não houvesse mais espaço vago, mas concordou em auxiliar o samaritano que estacionou seu animal frente à pensão rogando ajuda. Talvez até preferisse hospedar o burro, tal era o estado imundo do turco.
Empoeirado, nu e ensanguentado. E obeso.
Não fosse o viajante antecipar o pagamento das despesas, teria deixado aos cães a tarefa de limpar os ferimentos.
Apenas a atenção fria e cordialidade comercial.
Experiências anteriores lhe ensinaram que calotes não alimentam a família e a generosidade nos serviços prestados raramente é reconhecida. Muito menos gratificada.
Remuneração de dois dias de trabalho, recomendações de cuidados e o compromisso assumido de arcar com despesas adicionais. E lá se foi o samaritano. Simples mas confiável.


   O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a caminhada no escuro da noite.
Como a fugir do asco do sangue e entranhas de animais sacrificados, do vozerio do povo em suas reivindicações e dos fariseus discutindo aspectos triviais de ritos num tom de vida ou morte. Dos vendilhões anunciando os melhores animais com argumentação do aroma mais agradável no altar de Deus, junto com o tinir das moedas confirmando o êxito de um embuste coletivo. Quiçá tentando iludir inclusive ao Todo-poderoso na barganha do perdão.
Amanhã seria outro dia igual aos demais. A mesma rotina. Os mesmos odores.
Mas hoje, após abastecer seu incensário, solicitou ao sumo sacerdote a permissão para ir a Jericó para visitar seus pais.  Deixou as brasas consumindo o incenso, encheu seu odre com água para a caminhada.
A estrada pedregosa e deserta mostrou seu perigo logo após a curva. A surpresa da visão do homem caído ensanguentado fez disparar os batimentos cardíacos e também a lembrança do cuidado de que o sacerdote não se deve contaminar ritualmente por tocar em mortos.
(Será que estava realmente morto?)
O ímpeto de afastar-se de impurezas o fez descrever um arco evitando a aproximação do impuro.
Não lhe seria conveniente dar atenção a um possível incircunciso. Tocar nele em prestação de socorro estava fora de cogitação. Talvez seus protocolos de atendimento emergencial remetessem a algum tipo de órgão público incumbido desse tipo de atitude.
Na falta de celular para ligar ao SAMU, seguiu seu caminho. Aquilo não era problema seu.


   O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a caminhada no escuro da noite.
Em linha reta sua ronda talvez se limitasse a meio dia de caminhada. Mas naquele caminho pedregoso e cheio de curvas, o cansaço aumentava proporcionalmente a altitude. Ainda bem que depois de sua folga, estava designado apenas a permanecer na guarda. Pilatos tentava fazer política de boa vizinhança com os judeus e por isso imaginou dias tranquilos com pouco a fazer.
 Por boa vizinhança nem sequer cumprimentou os desocupados sentados nas pedras à beira do caminho. Apenas olhares desconfiados aliados à confiança na espada e em seu treinamento militar.
“Deixe quieto”.
Os desocupados o acompanharam em olhar silencioso até desaparecer na curva.
Da mesma forma, mais adiante ignorou o homem que descia cabisbaixo. Uma atitude amedrontada daquelas não condizia com zelotes ou outros rebeldes.
Chegou a pensar em abordar um comerciante de especiarias que vinha a passos pesados. Mas isso poderia lhe causar mais perda de tempo do que lucro.
Mais adiante cumprimentou solenemente um sacerdote apressado.
Enquanto se assentava para ajeitar as correias das sandálias, viu descendo outro homem de olhar altivo. Primeiramente imaginou ser algum escriba, mas a resposta à sua saudação revelou ser um levita. De fato ele ainda não havia aprendido a diferenciar as aparências de um e de outro. Sempre confundia. Grande porcaria. Para ele, apenas farinha do mesmo saco.
Antes de chegar a Jerusalém, outro viajante chamou sua atenção.  Ao ser abordado, solícito, apeou do jumento para responder ao soldado seu destino. Samaria.
Não havia nada nesse último que o desabonasse e assim, continuou seu caminho.


   O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a caminhada no escuro da noite.
Não fosse ouvir um gemido moribundo, talvez fosse até tropeçar no homem caído. Absorto em pensamentos além do Jordão compondo com o ritmo do ruído dos passos no caminho pedregoso, sua surpresa culminou numa rápida e fria análise do quadro.
Os traços trácios o ligavam ao patriarca Javé, muito distante do seu patriarca Levi. O corpo ferido e caído confirmava que ele tinha ido além dos limites em expor-se.
- “Vacilão!”
O que leva um ser a vir de tão longe em suas ambições comerciais? Talvez até tenha merecido a surra...
Outra rápida olhada ao redor determinou a sentença da indiferença. Seria melhor ir adiante antes que ele se tornasse a próxima vítima dos salteadores. E sua ocupação não era a de socorrista. Afinal, ele já tinha mais de vinte e cinco anos.


   O céu cinzento parecia antecipar as horas naquela tarde sombria, levando o homem a andar mais depressa como a tentar poupar-se de uma chuva ou de concluir a jornada no escuro da noite.
Montou habilmente o burro e tratou logo de iniciar seu regresso. Sua pressa o fez esquecer-se de oferecer água ao animal antes de iniciar a viagem, mas lembrou da fonte jorrando junto às palmeiras em Jericó. Haveria tempo hábil para isso. Talvez até pernoitasse aproveitando para conversar com seu amigo estalajadeiro.
Seu plano precisou reajustes.
Como se não bastasse o tempo perdido com o interrogatório do soldado no caminho, os gemidos do homem ferido no caminho pedregoso o comoveram.
Usou a água restante do seu odre para reanima-lo e aliviar o ardor dos ferimentos. Colocou-o sobre o burro, cobrindo sua nudez com seu próprio manto de viagem e continuou cautelosamente.
Não havia como levar o estrangeiro junto para cuidar dele em sua própria casa. Ele precisava repouso e não o sacolejar no lombo do burro até Samaria. Preferiu deixa-lo aos cuidados do amigo, pagando com as moedas que tinha poupado para a viagem.
Ao passar pela fonte deixou seu burro saciar a sede enquanto enchia novamente seu odre.
Teria que apressar-se e continuar seu caminho. Não haveria dinheiro suficiente para ficar hospedado também.
O moageiro observou tudo de frente de sua casa e riu.

“Só pode mesmo ser um samaritano trouxa...”

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